| Compreender a sexualidade infantil requer algo para além do conhecimento do desenvolvimento da sexualidade. É preciso associá-lo ao desenvolvimento emocional como um todo, bem como às peculiaridades masculinas e femininas nas diversas idades compreendidas entre 0 e 6 anos .
Apesar dos escritos e apontamentos de Freud, bem como da revolução sexual, questões relacionadas à sexualidade ainda nos surpreendem, embaraçam e envergonham. Seja diante da criança, do adolescente ou do adulto, as manifestações da sexualidade mexem com todo mundo.
Costumamos pensar em sexo e nas manifestações da sexualidade com a cabeça de gente grande, com a experiência do adulto, esquecendo de como fomos e vivemos a nossa sexualidade até chegar à vida adulta.
Se fizermos um exercício de pensar em quais são as partes eróticas do homem e da mulher, imaginando o corpo todo, de imediato pensaríamos nos órgãos genitais externos masculinos e femininos, na boca, nos mamilos, no pescoço e talvez atrás da orelha e nas nádegas. Pensando mais um pouco, surgirão em nossa imaginação as pernas, os braços, as axilas, as costas, o ventre, etc. enfim o corpo todo. Pois é, o corpo todo é erótico! Com isso podemos dizer que a sexualidade, de imediato, está diretamente associada a genitalidade, mas, no entanto, ao refletirmos um pouco mais constatamos que todo o corpo é erótico. Além disso, a vida e a nossa relação com ela, com a natureza, com o trabalho, pode estar repleta de prazer. Portanto, o prazer não está só na relação sexual, no ato sexual ou na masturbação.
Mas por que será que o corpo todo é erótico? Porque quando nascemos é pelo corpo que sentimos o mundo. A proximidade física e mental dos pais cria no bebê uma sensação de segurança e amor. É no início da vida que o ser humano adquire a imagem boa ou frustradora da mãe e do pai. Cada um de nós carregará ao longo da vida essa imagem, a qual influenciará nossa capacidade amorosa e nossa sensação íntima de bem-estar, mesmo nas situações mais difíceis.
Portanto, o desenvolvimento afetivo-sexual da pessoa será resultado da combinação do componente biológico (índole inata do bebê) com o ambiente e o meio cultural (do qual os pais são parte fundamental).
Vários discípulos de Freud se dedicaram a estudar o desenvolvimento precoce do psiquismo. Melanie Klein e Bion destacaram-se por estudar a importância das primeiras relações mãe-bebê. Bion chamou atenção para a capacidade da mãe em tolerar o choro e a angústia do bebê, e além disso transformá-los buscando atender as necessidades do bebê. Essa capacidade da mãe em ficar com seu bebê, sem se desesperar, é o que favorecerá as condições para o seu desenvolvimento emocional. Bion chamou essa capacidade da mãe de função de rêverie, indicando um estado de receptividade tanto emocional quanto cognitivo aos sinais que provém do bebê.
Essa capacidade de rêverie, da mãe ou de quem cuida do bebê, vai ao encontro das necessidades dele, procurando acolher, aceitar, digerir e nomear as inúmeras emoções do bebê para que ele possa aos poucos reconhecê-las.
Ao nascer, o bebê perde a tranqüilidade do útero materno - lugar protegido onde nada falta - e chega em um mundo estranho e frustrador no qual ele vai ter que se adaptar. A capacidade de rêverie da mãe é que permitirá que o bebê possa lidar com suas fantasias, desconfortos e medos muitas vezes aterrorizadores, pois ele nasce com poucos recursos para lidar com essa situação de total desamparo. Se a mãe é capaz de rêverie, ela suporta a aflição do bebê e, pela sua capacidade de tolerar, digerir e nomear a angústia, faz com que o bebê suporte melhor a própria ansiedade. Quando a mãe possui esta capacidade, aos poucos a criança também a desenvolve, criando dentro de si mesma os meios para tolerar a frustração e a dor.
Pela rêverie, a mãe transforma a turbulência emocional do bebê, tolerando em si a angústia do filho, nomeando-a de forma a ser tolerável para ele e oferecendo algum sentido. Só então o bebê torna-se capaz de armazenar, simbolizar, pensar e sonhar sobre tais experiências. Assim a criança vai desenvolvendo sua capacidade para tolerar frustrações e para pensar. Portanto, a capacidade de rêverie da mãe permite que o bebê vá "alfabetizando" seus sentimentos. Quando isso não ocorre adequadamente é possível que se desencadeie quadros de transtornos globais de desenvolvimento, como a psicose infantil ou autismo.
A auto-exploração é outra experiência fundamental para o desenvolvimento saudável da sexualidade da criança. Muito cedo, às vezes antes de um ano de idade, ela aprende a brincar e a ter prazer com o próprio corpo. Há ocasiões em que o bebê se contrai, relaxa e contrai novamente o corpo, reagindo negativamente se interrompido, pois está tendo prazer com a brincadeira.
A relação boa com a mãe possibilita um auto-erotismo genital. Isso parece ser a condição essencial para que o corpo e o aparelho genital sejam investidos libidinalmente, o que possibilitará o prazer sexual e a alegria de viver no adulto.
A teoria do desenvolvimento da sexualidade foi construída por Freud em várias fases, uma consecutiva à outra. Iremos tratar de cada uma delas, mas devemos compreendê-las como um todo articulado, pois todas elas, de uma forma ou de outra, vão compor a nossa sexualidade adulta.
Quando somos bebês vivemos a primazia da fase oral, isto é, a boca é a região do corpo na qual mais temos prazer. No decorrer da vida, ela vai se manifestar no prazer de comer, de beijar, de fumar, de falar etc. Isso significa também que o bebê utiliza-se da boca para descobrir o mundo. Ele experimenta o mundo pela boca, e põe tudo nela.
A partir de um ano e meio e dois anos vivemos a primazia da zona anal. É o momento em que iniciamos as crianças no controle dos esfíncteres. O controle dos esfíncteres gera grande prazer nas crianças, pois as fezes e a urina representam suas primeiras produções. Vocês já pensaram nisso, que as primeiras coisas que fizemos e colocamos no mundo foram nossas fezes e urina? Esse prazer vai se manifestar depois, especialmente nas artes plásticas e não só, mas em todas as coisas que produzimos, desde textos, teses, até mesmo as produções virtuais via internet. As vivências da fase anal oferecem à criança a primeira possibilidade de controle ativo, sobre si mesma e também sobre o mundo que a rodeia, por meio dos primeiros produtos que ela consegue identificar como seus. Estão nessas experiências a origem da estruturação da autonomia.
O cocô e o xixi assumem, na fantasia das crianças, todos os tipos de poderes mágicos. A conduta dos adultos, quando ficam muito preocupados com a regularidade intestinal, confirma para elas a fantasia de terem uma arma perigosa nas fezes. O "prender", não fazer no urinol ou fazer nas calças parece ser, realmente, uma arma perigosa contra os pais. Pode ocorrer que o valor oposto se aplique a isso, como algo precioso, um dom maravilhoso que se pode conceder ou não, à vontade.
Desde a mais tenra infância, as fezes e a urina se mesclam, imaginariamente, de qualidades intimamente ligadas ao relacionamento da criança com os pais. Pouco a pouco ela pode exprimir verbalmente certos aspectos de algumas dessas fantasias. Se soubermos o grau do significado das fantasias que as crianças emprestam aos produtos corporais, não nos surpreenderemos com as oscilações dos primeiros anos de educação higiênica, mesmo nas famílias mais disciplinadas.
Depois desse período, por volta de três anos, surge o que Freud chamou de fase fálica. É quando as crianças não param de nos fazer perguntas, a fase dos por quês: O que é isso? Pra que serve aquilo? Como faz isso? De onde vem isso? E como é aquilo? É quando a criança é capaz de manifestar sua curiosidade sexual. Se estivermos atentos, em algum momento ela vai querer saber como veio parar nesse mundo.
Um menininho de pouco menos de três anos passou semanas perguntando à sua mãe, a cada tanto, como se faz montanhas, carros, árvore, televisão, nuvens, casa, e variadas outras coisas que se tornavam objeto de sua atenção. Esta curiosidade irrestrita culminou, num dia, com a seguinte pergunta: "Mamãe, como se faz gente pequenininha?"
Se essa curiosidade sexual puder ser atendida, respondida, toda a curiosidade epistemofílica será despertada e a capacidade de aprendizagem poderá se desenvolver com facilidade. Além da curiosidade através de perguntas, é muito comum as crianças entre dois e três anos erguerem suas blusas ou levantarem a roupa e ficar se olhando ou mostrando a barriga, genitais aos outros, ou ainda tentando ver o do outro.
"Crianças de dois anos e meio a três anos, brincavam usando uma família de bonecos. A primeira coisa que as crianças fizeram foi tirar-lhes a roupa e observar tudo e uma delas, com surpresa perguntou: "Por que o vovô tem pipi?"
"Bebel de três anos vivia atrás dos meninos na escola, principalmente de um que ela mais gostava e não perdia a oportunidade de abaixar-lhe as calças. Ao ser interrogada porque abaixava as calças do amigo ela, rindo e com certa vergonha, disse: "É que o dele é pequeno e o do meu pai é grande!"
É nessa fase que a criança viverá mais intensamente a frustração de perceber que a mamãe, no caso do menino, pertence ao pai e que o pai pertence à mãe, no caso da menina. A isto Freud chamou de vivências e conflitos do complexo de Édipo.
A criança de três anos mal deixou de ser um bebê, o que não quer dizer, que ela se comporte sempre como um bebezinho. Ainda não é fácil se socializar, sua tendência é ser inflexível e rejeitar inovações. É a idade do não, dos extremos, na qual é difícil compartilhar. A criança tenta descobrir quem ela é opondo-se ao que existe, de forma semelhante ao que acontecerá mais tarde na adolescência.
Aos três anos a criança começa a se libertar da sua completa dependência anterior da mãe e do pai. Ela anda e corre com maior segurança, começa a usar palavras de maneira adulta e se diverte em reuni-las em combinações interessantes, mesmo que, em outras ocasiões, possa se atrapalhar com essas mesmas palavras, balbuciando e gaguejando.
O mundo para a criança dessa idade consiste nos familiares mais próximos: pais, irmãos e irmãs; é como se ela não conseguisse conceber a idéia de outras pessoas fazendo parte desse mundo. O pai e a mãe é que são amados, admirados e importantes.
O amor do menino pela mãe tem conotações definidas de sexualidade masculina, da mesma forma que o amor da menina pelo pai é muito feminino. Ligadas a esse sentimento estão fantasias de um relacionamento exclusivo, de dormir com o genitor do sexo oposto, como a criança sabe que papai e mamãe dormem juntos em uma cama no mesmo quarto. A atividade noturna dos pais é um mistério para a criança. Ela tem suas próprias idéias sobre o assunto, mais ou menos próximas da verdade. Se a criança tiver um irmão mais novo, provavelmente, ela já terá estabelecido alguma ligação entre o dormir dos pais num quarto e o aparecimento de um novo bebê. As crianças geralmente percebem muito mais do que se passa na família do que julgam os adultos.
Esses desejos de ter a mamãe para si, de expulsar o papai do quarto da mãe (ou o oposto) são universais. Esta situação triangular de amor, de ciúmes ao compreender que o pai não desistirá da mãe para que o menino possa tomar seu lugar; de rivalidade, ódio e culpa por esses pensamentos em relação ao pai - que é também muito amado - é carregada de sofrimento. Ela é muito real e imensamente importante para a criança.
Se pudermos reconhecer a intensidade dos sentimentos da criança, seremos capazes de ter mais tato e ajudá-la neste período tão conturbado.
O menininho do exemplo anterior, interessado na origem dos bebês, ao completar três anos, declarou à mãe: "Mamãe, eu amo você!" Ao que ela lhe respondeu: "Eu também te amo!" Ele então perguntou: "E quem ama o papai?" Ela lhe disse: "Eu e você!" E ele retrucou: "Mas eu não vou dizer isso para ele."
A criança tem ciúme do relacionamento entre os pais e se sente excluída. Ela demonstra isso através do desejo de introduzir-se no quarto de dormir ou na cama dos pais, por meio da dificuldade para dormir, ou das tentativas de jogar o pai contra a mãe, e vice-versa; pode ser que a criança se comporte bem só com o pai ou com a mãe, mas se torne de trato difícil se estiver com os dois juntos.
O menino quer crescer para casar com a mãe e quer ficar como o pai. Deseja "calçar os sapatos do pai". As meninas, muitas vezes o fazem literalmente. Na brincadeira pode acontecer oscilação entre independência, brincar alegremente sozinha, imitar os adultos, e dependência infantil com necessidade de apoio. Tudo isso também faz parte do complexo de Édipo.
A menina brinca de ser como a mamãe ou, no caso do menino, de ser como o papai, contudo, às vezes os papéis se invertem. As meninas são mães de família e têm filhos de quem cuidar nas brincadeiras e os meninos têm atividades masculinas. Os meninos também brincam de fazer trabalhos domésticos ou de ter bonecas como bebês e as meninas de serem como o pai. Na maioria das meninas há características de garoto travesso, e existem traços femininos nos meninos. Praticamente todas as crianças passam por fases de querer ser do outro sexo.
As crianças admiram e gostariam de ter a capacidade da mãe, de ter filhos, seios, e de alimentar o bebê. Também admiram a importância e a força do pai, e percebem intuitivamente seu papel na família. O pênis do pai é fonte de admiração e inveja para as crianças de ambos os sexos.
É natural para uma criança obter satisfação ao brincar com seu corpo e descobrir agradáveis sensações ao tocar os órgãos genitais. Crianças, mesmo bebês, buscam conforto em tais atividades, especialmente se estão sós. Sentimentos de culpa podem surgir porque a masturbação não é usada somente para trazer conforto. Geralmente ela tem íntima ligação com sentimentos de ciúme e conflitos de relacionamento com os pais. Na imaginação, o menino de três anos, ao ter uma ereção ou masturbação, pode sentir que ele é seu pai, que tem o pênis grande como o do pai, e pode possuir a mãe da forma que ele imagina que o pai a possui. Devido a essa inveja do papel do pai e ao seu sentimento de exclusão, a criança pode desabafar a raiva tornando doloroso o relacionamento imaginário entre pai e mãe, no qual um deles, ou ambos, ou os filhos, são prejudicados. Isto porque a masturbação freqüentemente inclui fantasias cruéis e a criança sente culpa em relação a elas.
Esses tipos de fantasias são universais aos três anos e, praticamente, todas as crianças se masturbam com esta idade. Se a masturbação se tornar excessiva ou excluir outras atividades, pode indicar alguma dificuldade emocional. É evidente que, como as crianças pequenas já se sentem culpadas em relação à masturbação, não se deve reforçar esse sentimento sugerindo que a masturbação faz mal ou é daninha. Podemos dizer algo como: isso é gostoso mas aqui não é lugar para isso. Ou isso é muito gostoso mas devemos fazê-lo quando estamos sozinhos...
Basicamente todos os medos se ligam aos fortes impulsos da criança e seus sentimentos de amor e ódio podem ter conexão com o temor por sua própria segurança ou de sua família; ou medo de ferir, em intenção ou ações, alguém a quem ame. Medo da comida, dos movimentos intestinais, da urina ou do vaso sanitário, da excitação masturbatória e dos órgãos genitais é muito comum nessa idade.
A maior parte das crianças de três anos chupa um dedo, um lençol ou um cobertor de ninar quando vai dormir, e algumas crianças também de dia. Podem recorrer a isso como apoio, quando se sentem cansadas ou tristes. Podem querer estar dizendo que ainda têm necessidades de bebê. O uso de objetos que vêm desde bebê, têm muitas ligações com as fantasias da criança. No começo eram, provavelmente, um substituto do relacionamento imaginário com a mãe na ausência dela, sem recorrer às brincadeiras com o próprio corpo. À medida que passa o tempo, o brinquedo, o cobertor ou peça de roupa favorita assumirá diversos significados: às vezes, representará uma parte da criança, ou de um bebê, mãe ou pai, irmão ou irmã, e ajudará a criança em ocasiões de solidão, raiva e frustração.
Brincar com o próprio corpo é um meio de obter conhecimentos sobre si mesmo e de adquirir uma "sensação" de si próprio como pessoa separada da mãe. Esse conhecimento vai sendo adquirido, igualmente, por meio da curiosidade pelo seu corpo, expressa em forma de brincadeira. Brincar é o modo da criança aprender sobre si mesma e acerca do mundo, de pessoas e coisas que a rodeiam. É verdade, como se diz sempre, brincar é o trabalho da criança.
Além de ajudar a criança a adquirir conhecimento e habilidade, o ato de brincar a auxilia a lidar com seus sentimentos, algumas vezes conflitantes e esmagadores. Por meio da brincadeira, a criança pode aprender a lidar com seus sentimentos intensos de amor e ódio, medo e tristeza, distantes do ponto de origem desses sentimentos. O ursinho ou as bonecas podem agir como substitutos de pais, irmãos ou irmãs. A criança pode, sem inibição, expressar seus sentimentos apaixonados em relação a seus brinquedos, enquanto expressá-los à família pode ser mais perigoso.
No brincar a criança pode elaborar fantasias de ter sido má em algum momento. Nesta atividade a recuperação mágica e a ressurreição constituem a regra, não a exceção. O impulso de reparar o dano é importante e ajuda a criança a ter mais esperança em poder desfazer o mal de seu relacionamento verdadeiro com a família.
Muitos medos das crianças pequenas se ligam à incapacidade de distinguir entre fantasia, ou realidade interior e realidade externa. Aos três anos, a criança se preocupa muito em separar o imaginário do "real".
A criança quer explorar espaço, tamanho, distância, quer saber sobre materiais diferentes, sobre sons e o que os produz. A mente da criança se ocupa a tal ponto em observar e testar que, às vezes, suas demandas se tornam exaustivas para os pais e educadores. A criança se preocupa muito com os fatos mais básicos da vida e da existência e com todos os acontecimentos do círculo familiar mais próximo. A criança saudável tem curiosidade sobre a concepção e o nascimento, sobre o relacionamento sexual dos pais e sobre a morte.
A capacidade de usar melhor as palavras a ajuda a identificar as coisas, classificar e comparar. Sua capacidade de raciocínio é assim liberada. As palavras são um instrumento essencial do pensamento. Não quer dizer que a razão nesta fase, ou mesmo em fases posteriores, possa divorciar-se da emoção.
Algumas perguntas infantis nascem do interesse de saber como funcionam as coisas, um interesse mais ou menos intelectual. Muitas vezes, porém, pode-se notar um tom ansioso e emocional na pergunta. Outras vezes a ansiedade se faz patente na repetição infindável da pergunta. Por exemplo, o desejo de experimentar cientificamente e descobrir o que quebra e o que não quebra pode estar ligado às perguntas ansiosas sobre parte do corpo que podem se quebrar.
Tudo será questionado: por que as coisas são feitas deste modo e não daquele, como funcionam as coisas, e principalmente, como é a profissão e o trabalho das pessoas. Por que os corpos das pessoas são assim, referindo-se às diferenças sexuais anatômicas, como se fazem os bebês e como nascem, por que as pessoas morrem.
Em uma escola uma menina de três anos viu a mãe de um colega que estava grávida e perguntou para a professora se precisava casar para ter um nenê. A professora perguntou quem lhe havia dito isto e a menina disse que foi a sua mãe e que também lhe disse que é uma sementinha que tem lá dentro e cresce. Uma coleguinha que ouvia a conversa, perguntou em seguida, "Tia tem água?", e a professora novamente questionou o porquê da pergunta. A coleguinha disse: "É que a minha mãe falou que é barriga d'àgua".
Pode às vezes ser difícil saber como responder a essas perguntas das crianças e muitas vezes podemos não saber as respostas. Pode ser que a criança não acredite nisso, mas é muito importante que os pais, assim como os educadores, reconheçam tanto sua ignorância como seus erros. Às vezes a criança faz a mesma pergunta várias vezes, parece insatisfeita com as respostas recebidas, ou se esquece das respostas. Pode ser que subjacente à pergunta haja outra, não explicitada, mas muito mais urgente, que não consegue pôr em palavras. Talvez tenha medo de perguntar.
Nessas situações, como já assinalado na introdução, é muito importante primeiro entender a pergunta da criança, o tamanho e o conteúdo da pergunta e dar uma resposta cientificamente correta, do tamanho da sua pergunta, corrigindo informações errôneas. Devemos responder sempre, mesmo que seja para dizer que não sabemos, pois quando encontramos desde pequenos alguém próximo a nós, seja ele um familiar, amigo ou educador de nossa confiança, que pode responder verdadeiramente nossas questões, mantemos vivos dentro de nós a esperança e o desejo de sempre poder vir a conhecer.
Aos quatro anos, geralmente, a criança já tem consciência da sua identidade sexual, isto é, se é homem ou mulher.
A criança de quatro, cinco anos já estabelece limites entre o "eu" e o "outro". É comum a manipulação auto-erótica, como se estivesse sozinha, sem repressão: tudo indica que esta é uma atividade para se "certificar" de que está tudo bem dentro da calcinha ou da cueca. Ela se torna mais ativa, entra no período de maior desenvolvimento da linguagem e passa a ouvir e compreender o que lhe é dito diretamente. A criança de quatro anos fala muito sozinha e dá forma à sua imaginação, que corre solta. Ela sente muito medo e necessita de heróis para protegê-la de suas fantasias. É capaz de cooperar com os pais e deseja a aprovação deles.
Nessa fase os amigos passam a ter importância, apesar de a criança continuar briguenta e autoritária. Ela tem muita energia e fala sem parar. Esse período exige uma firmeza extra dos pais.
Ela está muito interessada em aprender o que é real em seu mundo, e em separá-lo do mundo de faz-de-conta de sua imaginação. Sua brincadeira reflete o modo como oscila entre esses dois mundos e, ao mesmo tempo, a ajuda a compreender melhor a diferença entre eles. A brincadeira também expressa os sentimentos turbulentos. Após uma visita ao médico, por exemplo, a criança pode resolver seus medos atuando como o "doutor" em sua dramatização.
Na brincadeira é mais fácil controlar seus sentimentos reprimidos, porque em sua dramatização a criança é seu próprio patrão. Até certo ponto é útil ter por perto um adulto que não a desaprove, o que dá à criança a confiança de que é aceita em suas brincadeiras. Outras vezes é melhor poder brincar sem um adulto por perto, como a mãe, pois ela pode ser objeto de expressão de sentimentos diversos, até mesmo os mais hostis.
Algumas crianças, nesta idade, ainda têm amigos imaginários. Podem ser outras crianças, um animal, ou, ocasionalmente, um adulto, que são encenados pela criança em pequenas peças sobre as quais pode ter total controle. O mais importante é oferecermos às crianças a oportunidade de brincarem.
Nessa idade as crianças começam a compreender o que é ser "homem" e "mulher", "menino" e "menina". Os meninos se identificam com o pai e querem se parecer com ele, às vezes serem ainda melhores. Há um senso de rivalidade nisso, rivalidade que pode incluir o desejo de tomar o lugar do pai e cuidar da mãe. Por sua vez, as meninas começam a se identificar com a mamãe, a copiá-la e podem também querer tomar o lugar da mãe. O desejo de imitar e sentir-se como a mamãe e o papai faz parte do crescer. As crianças vão se sentindo mais seguras quando os pais deixam bem claro, que há uma hierarquia, que eles são mamãe e papai e não podem ser substituídos.
Apesar de todo seu desenvolvimento motor e verbal, a criança de quatro anos ainda é muito dependente dos adultos para ajudá-la a controlar seus impulsos, e se isso não acontece ela sente muito medo de ser tomada por eles. Com freqüência procurará testar os que a rodeiam, especialmente novos adultos, para ver até onde a deixarão ir. Se a sua tirania pode ser engraçada em alguns momentos, também pode ser muito irritante e embaraçosa. Muitos dos problemas que surgem diante de criança mandona e dominadora, podem ser resolvidos se esse comportamento for considerado como parte da experimentação para a descoberta dos próprios limites e se os adultos mantiverem a hierarquia da relação.
Nessa idade ela ainda pensa de modo muito concreto; suas idéias estão relacionadas com os objetos reais que ela pode ver e tocar. As crianças aprendem com os adultos a explicação de regras. Responder: "Porque papai lhe dará umas palmadas se você não fizer" é diferente de: "Porque você machucará alguém se eu não te segurar". Há uma clara diferença nas lições de causa e efeito que esses dois métodos ensinam. Ao explicarmos as razões, nós a ajudaremos a aprender que existem razões para as coisas que vê a sua volta e razões para as coisas que lhe pedem que faça, mais do que apenas regras sem explicações.
De todos os anos da infância, esse é o que leva ao auge a indagação. Muito da tagarelice de uma criança de quatro anos é pura alegria com o uso da linguagem. Meninos e meninas farão o maior uso possível da fala para descobrir tudo o que está a sua volta. Elas se tornam muito interessadas em falar de: Deus, morte e sexo. Quando percebem que essas questões são tabus elas não fazem perguntas, mesmo estando preocupadas com elas.
Muitas dessas questões se referem aos bebês: de onde vêm, como são feitos. Um novo bebê na família estimulará a curiosidade, resultando em novas perguntas. Querem saber de suas próprias origens, se também poderão ter filhos e sobre as diferenças entre meninos e meninas. Essa curiosidade é natural e saudável, e não requer necessariamente explicações anatômicas.
Freqüentemente as crianças confundem a origem dos bebês com comida e excreções. É importante deixar claro que, depois de ter ficado um tempo dentro da barriga da mãe, o bebê sai por um buraco especial existente entre as pernas de sua mãe. Falar sobre o papel do pai pode ser embaraçoso para muitos pais. Ainda não é necessário dar uma completa descrição do ato sexual, basta dizer que o pai coloca uma célula no corpo da mãe. A maioria das famílias tem seus nomes especiais para os órgãos sexuais, porém se não existirem é menos embaraçoso usar os termos científicos. Existem livros que podem ajudar os pais, com ilustrações que auxiliarão suas explicações (ver DICAS no final do livro). Respostas francas, à medida que surgem as perguntas, geralmente são o bastante.
Uma menina de quatro anos chora angustiada ao ver o álbum de casamento de seus pais e pergunta a sua mãe: "Porque eu não fui ao seu casamento? Por que eu não estou nas fotos?" A mãe embaraçada disse: "Porque você ainda não tinha nascido." A criança insiste: "Onde eu estava então?" E chora. O pai do banheiro escuta e responde: "Porque você estava no meu saco." E ela imediatamente se acalma.
A criança de quatro anos pensa em termos concretos e explica o que não compreende de forma mágica.
Nessa idade, as crianças precisam dos contos de fadas porque os contos expressam suas próprias ansiedades em torno da magia. Encontram segurança nos finais felizes, que as tranqüilizam de que não serão dominadas pelas coisas aterrorizantes de sua própria imaginação.
Um garoto de quatro anos dizia à sua mãe, com certa freqüência, o quanto desejaria ser um rei e viver em um castelo. Um dia a mãe resolveu perguntar por que queria tanto isso, e ele lhe respondeu: "Porque se eu fosse o rei, eu poderia fazer você virar uma rainha e me casaria com você e teríamos muitos filhos e viveríamos felizes para sempre!".
Aos quatro anos está muito presente o mais importante de todos os medos: o de perder a mãe ou de ser abandonado por ela. Esses medos podem estar relacionados às pessoas que a criança julga poderem afastá-la de casa, ou a fatos que foram associados a ser deixada por algum tempo. Medo de animais freqüentemente surge associado aos sentimentos de raiva transferidos para o animal. É um jeito da criança se livrar deles, porém o animal se torna apavorante.
Assim como não podemos proteger a criança de todos os perigos - senão nunca se tornará independente - também não podemos protegê-la contra todos os medos, próprios ou nossos. Aceitar alguma frustração e lutar com os sentimentos que isso desperta, é parte necessária do crescimento.
A criança de cinco anos já tem um vocabulário amplo, usa frases corretas e complexas, quer saber como funcionam as coisas e consegue expressar melhor suas dúvidas. A mesma curiosidade que as leva a destruir os brinquedos para ver como são por dentro, também as motiva a perguntar de onde vêm os bebês e como funciona o corpo delas.
O mesmo menino que aos três anos queria saber como se faz gente pequenininha, aos cinco anos foi confirmar com a mãe a informação de que para fazer um bebê, ele deveria colocar uma sementinha. Tendo essa informação confirmada, quis saber: "E onde eu pego essa sementinha?" A mãe lhe disse que não precisaria pegá-la, que esta sementinha fica dentro do corpo. Ele quis então saber onde estava e onde deveria colocá-la. A mãe respondeu que as sementinhas do homem ficam no saco e que são colocadas na vagina da mulher. Ele quis saber como. A mãe disse que colocando o pênis dentro da vagina. Então ele falou: "Já entendi. Vamos fazer isso agora?" Ao que a mãe lhe disse: "Isso, você só pode fazer quando for grande, e nunca com a mamãe".
Nessa etapa, as crianças adoram dizer que têm namorado ou namorada e, muitas vezes, arriscam um beijo na boca. Passam também a ter um melhor relacionamento com o outro sexo; só aos sete anos é que formam o clube do Bolinha ou da Luluzinha.
Aos cinco anos a criança já tem capacidade de ceder e cooperar. Ainda cria amigos imaginários e gosta de mostrar força e capacidade. Faz perguntas complexas, tanto sobre sexo como sobre a vida em geral. Por que feijão faz ficar forte? Por que chove? O que é trovão? Como nascem os bebês? Como entram na barriga da mãe? Essas ainda são perguntas comuns nessa idade, embora tenham sido feitas de forma mais simples na fase anterior. As crianças dão a mesma importância a todas as perguntas que fazem, não diferenciando aquelas que têm conotação sexual.
Seu senso de realidade é maior, o que a ajuda a tolerar alguma frustração; a criança já aprendeu que, no mundo real, não pode fazer as coisas acontecerem tão logo o deseje. Compreende melhor como uma coisa leva à outra, é mais capaz de se lembrar de pessoas e lugares e de dar-se conta de que muitas coisas são permanentes e não desaparecem. Tudo isto possibilita que espere um pouco e adie a vontade de ter seus desejos imediatamente satisfeitos, em grau muito maior do que podia antes tolerar. Seu autocontrole é muito maior: os sentimentos podem ainda ser intensos, mas há muitos modos pelos quais podem ser transmitidos construtivamente.
Tudo isso é muito importante na aprendizagem, pois capacita a criança a esperar que a professora confirme que sua lição está certa ou a tentar resolver um problema, ao invés de buscar uma resposta mágica. Antes de poder aprender a ler, escrever, ou somar, a criança precisa aprender a idéia de que uma coisa pode substituir outra, como um código. O maior exercício nesse campo é o uso da linguagem: descobrir que as palavras podem representar coisas reais.
A necessidade do brincar criativo, porém, continua presente. Sem a oportunidade de brincadeiras espontâneas, das atividades que as crianças inventam para si próprias, o aspecto criativo de sua inteligência pode embotar-se ou simplesmente perder-se. A liberdade para expressar os sentimentos é ainda muito importante.
Também para a criança os sentimentos são confusos. Em alguns aspectos, ela gostaria de se agarrar aos prazeres da infância; em outros, quer igualar-se aos adultos.
Cada vez mais, o menino se esforça para ser como o pai e a menina para ser como a mãe. As fantasias em torno de virem a tomar o lugar de um dos pais são menos definidas e os sentimentos a esse respeito são geralmente menos intensos. Mas os pais ainda são a coisa mais importante do mundo.
As crianças de cinco anos se debatem com os conceitos de certo ou errado, e começam a desenvolver uma consciência moral. Ao tentarem chegar a um acordo com essa consciência, as crianças estabelecem normas em suas brincadeiras, muito mais severas e inflexíveis do que as que jamais enfrentaram na vida real, embora não consigam mantê-las por muito tempo. Juntamente com as regras rígidas, podem existir fantasias de punições muito severas, que jamais sofreram, e que, evidentemente, não as ajudaria em nada. Isso fica muito evidente nas brincadeiras com bonecos e bonecas.
Há maior tendência de brincarem separadamente por sexo, escolhendo jogos e brinquedos diversos e de se diferenciarem um pouco nas coisas que fazem. Ambos ainda precisam muito de exercícios físicos, mas os meninos, em geral, se orgulham cada vez mais de suas habilidades esportivas. As meninas costumam estar mais adiantadas no uso da linguagem.
Permanece nos meninos algo de menina, e vice-versa nas meninas. Um menino precisa entender um pouco o que é sentir-se como menina, e a menina, o oposto. Muitas meninas atravessam uma fase em que adotam "atitudes de garoto agressivo". Freqüentemente, nós aceitamos esse aspecto "amolecado" das meninas mais facilmente do que o lado feminino dos meninos. Talvez porque nos preocupemos mais com a homossexualidade masculina. Como resultado, muitos meninos crescem envergonhados de seus sentimentos mais ternos e têm grande dificuldade em expressá-los.
Do exemplo de seus irmãos e irmãs, as crianças ampliam suas idéias sobre as diferenças entre meninos e meninas e homens e mulheres. Porém nem todas as crianças têm famílias mistas e, assim, é na escola que podem aprender a dar e receber entre os colegas, nas atividades conjuntas das salas de aula.
Em todos os níveis de idade as crianças precisam da oportunidade de ficar só se quiserem, de repousar e descansar longe das outras.
A ida para a escola não é o único período em que uma criança de cinco anos pode estar longe de casa. À medida que vai fazendo novos amigos, pode ser convidada a ir às suas casas para brincar, lanchar ou até para pernoitar.
Esses passeios fazem parte do crescimento da criança dessa idade. Contudo, passar a noite fora de casa é uma grande aventura para ela, mesmo que já conheça a família anfitriã. Se ela tiver um brinquedo favorito de hora de dormir, é importante levá-lo com ela, por segurança, assim como se deve deixar explícito quanto tempo vai durar a aventura. É possível que sinta dificuldade na hora de se deitar quando, por algum tempo, podem vir à tona antigos temores relacionados a estar longe de casa, daí ter com ela seu brinquedo predileto na hora de dormir. Aos cinco anos, urinar na cama também é comum, e é necessário antecipar providências a respeito para que a criança não fique ansiosa, em caso de "acidente". Dormir na casa de um amigo pode, porém, funcionar como um incentivo extra para a aquisição do controle, se este ainda não for total.
Férias representam um período de folga, quando as normas podem ser relaxadas sem medo de estragar as crianças para a época de voltarem à rotina. As crianças de cinco anos são geralmente capazes de entender que essa é uma ocasião especial.
O pensamento imaginativo é tão precioso quanto qualquer outra forma de inteligência. A capacidade de perceber algo sob novo aspecto ou um novo emprego para um objeto comum, propicia grandes descobertas. As atividades que mantêm a imaginação viva e fértil são valiosas. A criança precisa de tempo para descobrir como lidar com materiais de artes plásticas do seu jeito, até produzir algo genuinamente seu. Quando ela tiver acabado uma obra de arte podemos perguntar "qual a história de seu desenho?" Ela poderá contar os sentimentos que a motivaram, sem se sentir julgada ou criticada.
A imaginação está presente em muitas brincadeiras: teatrinho, construção com blocos, música, movimento. etc. As fadas e as bruxas, os heróis e os monstros expressam as partes mais esperançosas e temerosas da criança. Se ela consegue aceitá-las, à medida que constata que os outros respeitam os sentimentos que ela expressa em suas histórias e pinturas, torna-se uma pessoa mais integrada. Torna-se mais capaz de expressar todos os tipos de sentimentos de modo construtivo e de chegar a um acordo consigo mesma.
Quando a criança coloca na brincadeira sua imaginação, ela fica concentrada e calma. Enquanto a observarmos brincar nessas ocasiões, podemos entendê-la melhor e participar um pouco da magia de seu mundo.
Aos cinco anos vão querer saber porque as meninas não têm pênis, se os meninos podem perder o deles ou porque só as meninas podem ter bebês. Essas perguntas, como vimos, são comuns nas crianças de quatro anos, mas as de cinco também as fazem, e devem ser respondidas de maneira simples e informativa, deixando de lado detalhes elaborados que elas não poderão compreender.
A partir mais ou menos dos seis anos até mais ou menos os nove anos há um período bastante controvertido atualmente chamado de latência. Freud descreve que a latência é um período em que as energias libidinais são bastante mitigadas em função do desejo de aprender e de saber. A esse movimento Freud chamou de sublimação. Esse conceito atualmente é bastante discutido entre os psicanalistas porque, apesar de ser um período em que as crianças assimilam e acumulam muito conhecimento e se tornam mais independentes e mais competentes, observamos várias manifestações da sexualidade durante as brincadeiras, jogos lúdicos e a curiosidade por questões ligadas à sexualidade.
Aos seis anos a criança fala fluentemente, mas com um vocabulário limitado. Aqui, a fala é a expressão de algo, diferentemente dos estágios anteriores quando o foco era a formação de palavras e a identificação de coisas.
O impulso para crescer e o próprio crescimento são marcantes entre o sexto e oitavo ano de vida. As mudanças que ocorrem por volta dos seis anos são evidentes nas brincadeiras, devaneios e histórias que as crianças contam. O desenvolvimento da consciência é mais difícil para crianças cujos pais são extremamente críticos ou complacentes. Nessas situações, a criança de seis anos pode desenvolver, de um lado, autopunição extremada, e de outro, tendências marcantes para se colocar em situações em que será punida.
Nesta idade sua autoconfiança ainda não está totalmente estabelecida e há oscilações entre auto-suficiência e dependência infantil.
As diferenças sexuais já são claras, mas a tendência marcante de separação dos sexos começa a surgir a partir do final do sexto ano de vida, ficando evidente na formação de grupos na hora do recreio. Esse comportamento os ajuda a descobrir quem são e com quem se parecem.
Esta é uma idade de se relacionar e fazer amigos, e crianças solitárias devem ser observadas.
Normalmente nessa idade as amizades são duradouras, mas meninos e meninas deixam de brincar juntos fora de casa. As meninas dão mais valor a um amigo que os meninos a uma amiga. Meninas fazem tentativas mais assíduas para participar de uma turma de meninos, como a única menina do grupo. Poucos meninos desejam ser o único menino de um grupo de meninas.
A rixa entre meninos e meninas também é presente e deposita-se no outro grupo todas as vergonhas e desconfortos relacionados ao próprio sexo.
Nesta idade a criança expressa seu envolvimento com a vida por meio de perguntas, explorações, descobertas e busca de explicações pelos sentidos das coisas. A passagem do tempo, o envelhecimento e a vida antes de seu nascimento são assuntos de muito interesse.
A morte é um tema de curiosidade e interesse das crianças, seja pela morte de um parente ou pessoa próxima, pelo noticiário da televisão ou perda de um bichinho de estimação. É bom responder honesta e diretamente. E, em caso de morte de um parente querido, participá-la do fato e deixá-la partilhar do luto (por exemplo: enterro) é muito importante, além de lhe dar a sensação de que também pode cuidar de seus pais num momento difícil.
A exploração do próprio corpo e o do sexo oposto é natural, inclusive nas brincadeiras de médico e enfermeira. Somente a obssessividade é preocupante.
A criança, nesta idade, já tem suas próprias teorias sobre a origem dos bebês, as diferenças sexuais e sobre o ato sexual, por mais fantasiosas e distorcidas que sejam. É importante responder somente o que foi perguntado, sem expô-la ao excesso, nem mentir ou fingir que não ouviu. Quanto à origem dos bebês, querem saber também como comem, dormem e sobrevivem lá dentro.
Uma professora estava grávida e conta que uma de suas alunas de seis anos lhe perguntou um dia: "Como o nenê fica aí dentro? O quê que ele faz?"
Deus e questões religiosas são fonte de ansiedade para a criança, que se depara com uma diversidade de pontos de vista e de crenças. A criança se sente dividida entre a crença dos pais e professores, bem como aflita por precisar de lógica e coesão no seu mundo.
As fantasias e contos de fadas ainda são importantes aos seis anos, pois o mundo de fantasia ainda não está bem diferenciado da realidade. Apesar de já distinguir algumas fantasias da realidade, a criança ainda precisa de fantasias por achá-las divertidas (por exemplo, a de que Papai Noel existe ou a de que é o coelho que traz os ovinhos da Páscoa).
Quanto à disciplina, a criança aqui já tem alguma noção de certo/errado e é mais capaz de controlar seus impulsos destrutivos e anti-sociais, no entanto, ainda precisa dos pais em alguns momentos. O autocontrole e a disciplina vão se constituindo desde o início, com a firmeza dos pais quanto ao certo e ao errado, mas permitindo certa liberdade para o jeito de ser da criança.
À medida que a criança adquire um conhecimento geral de como é o mundo, e como ele funciona, descobre a permanência do que não pode mais ver, mas sabe que existe.
A última fase sexual, definida por Freud, é a fase genital. Essa se fará presente a partir dos nove anos quando se inicia a puberdade - com as mudanças hormonais - e a adolescência - com todas as transformações emocionais e sociais.
Para Refletir
Vocês se lembram de quando eram crianças? Do que vocês mais gostavam de brincar?
Vocês se lembram de suas primeiras teorias sobre como nascem os bebês? E como foram respondidas suas dúvidas? Quando foi que você soube de verdade como nascem os bebês?
Vocês já tinham se dado conta de que a sexualidade e o prazer estão presentes desde tão cedo na vida da gente?
Para Assistir
VÍDEO - A origem dos bebês segundo Kiki Cavalcanti - Funarte/decine 1995. Brasil - 16min.
VÍDEO: KUPROCO, de Jean-François Rivard. Court métrage, québecois, em couleurs. 1999 - 13 min.
Para Ler
BION, W. R. (1962) Aprendiendo de la experiencia. México: Piados, 1991.
FREUD, S. (1905) Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. In: Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. volume VII, Rio de Janeiro: Imago, 1974.
GTPOS, ECOS & ABIA (1994) Guia de Orientação Sexual - Diretrizes e Metodologia. São Paulo: Casa do Psicólogo. 10ª ed. 2004.
HOLDITHC, L. (1992) Compreendendo seu filho de 5 anos. Coleção Clínica Tavistock. Rio de Janeiro: Imago, 80 p.
KLEIN, M. (1882-1960) A psicanálise de crianças. Trad. Liana Pinto Chaves; revisão técnica, José A. Pedro Ferreira. Rio de Janeiro: Imago Ed., 1997.352p. (Obras Completas de Melanie Klein, v. II)
MILLER, L. (1992) Compreendendo seu bebê. Coleção Clínica Tavistock. Rio de Janeiro: Imago, 84 p.
MILLER, L. (1992) Compreendendo seu filho de 4 anos. Coleção Clínica Tavistock. Rio de Janeiro: Imago, 92 p.
REID, S. (1992) Compreendendo seu filho de 2 anos. Coleção Clínica Tavistock. Rio de Janeiro: Imago, 104 p.
STEINER, D. (1992) Compreendendo seu filho de 1 ano. Coleção Clínica Tavistock. Rio de Janeiro: Imago, 92 p.
STEINER, D. (1993) Compreendendo seu filho de 6 anos. Coleção Clínica Tavistock. Rio de Janeiro: Imago, 84 p.
SUPLICY, M. (1990) Papai, mamãe e eu: agora você já pode conversar. São Paulo: FTD, 63 p.
TROWELL, J. (1992) Compreendendo seu filho de 3 anos. Coleção Clínica Tavistock. Rio de Janeiro: Imago, 80 p.
WINNICOTT, D. W. (1975) O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago Editora.
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